Covid-19: Impactos e Lições

Published by Dr. Lucas Fortaleza - Psiquiatra on

4 min

Não poderia deixar de registrar algumas considerações a respeito da pandemia, que afetou a vida de tanta gente. Falarei um pouco das consequências sobre a saúde mental da população e do que podemos aprender com tudo isso.

O Desconhecido e a Ansiedade

O coronavírus surpreendeu a todos. Demoramos para aceitar a pandemia e as suas dimensões.

Quando nos demos conta do que estava diante de nós, surgiram incertezas em relação ao futuro e medo de que as projeções sombrias se tornassem realidade.

As crises de ansiedade aumentaram de forma muito expressiva, o que foi bastante notável nos meus pacientes e em pessoas conhecidas.

O segredo para lidar com possibilidades que geram muita ansiedade talvez seja viver um dia de cada vez, sem se deixar levar pelas possibilidades catastróficas, sem sofrer antecipadamente. Fazer sua parte e aguardar com fé e esperança.

Uma estratégia que também costuma ajudar é mudar o foco, praticar atividade física, fazer exercícios de relaxamento ou meditação, ter momentos de lazer (como ler um livro, ouvir música, assistir filme ou série), etc.

Do Isolamento às Perdas

O número crescente de mortes trouxe sentimentos de angústia e tristeza. O precoce falecimento de pessoas próximas gerou perdas irreparáveis e luto.

O isolamento social em si piora o humor. Aderir ao confinamento representou menos válvulas de escape e menos alternativas de lazer. A convivência constante com moradores da mesma casa levou a mais conflitos familiares.

Vale ressaltar a quarentena dos casos suspeitos e confirmados, que tiveram que passar dias ou semanas distantes de seus familiares, até dos que são mesmo lar. Nesse período pôde-se notar um pico de sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

Assim, percebemos o quão importante é a interação social e presencial com outras pessoas, assim como é essencial ter momentos a sós consigo próprio.

Estudos e Trabalho

Há quem tenha gostado de poder estudar ou trabalhar de casa, sem precisar ter deslocamentos. Muitos, entretanto, tiveram prejuízos em seu rendimento.

Pôde-se notar mais dificuldade em se manter a concentração, por conta do contato com uma maior proporção de estímulos não relacionados ao estudo ou trabalho. Mais procrastinação e menos cumprimento de prazos.

Por conta dos diversos fatores citados ao longo deste post, ocorreu uma propensão a se apresentar fadiga mental com uma maior facilidade.

Fica a lição de que é essencial ter organização, definir e programar tarefas, além de estabelecer horários e ambientes adequados específicos para dormir e acordar, estudar e trabalhar.

Das Notícias à Acomodação

Em meio a fake news e duras verdades, a saúde mental de muita gente acabou sendo afetada pelo excesso de informações. Percebemos o quanto redes sociais podem sobrecarregar a mente e o quanto é necessário ter períodos desconectados de meios de comunicação.

Um comportamento bastante praticado foi o de parar de ver ou ouvir notícias. Esquivar-se de notícias, até mesmo minimizar a pandemia e agir como se não existisse mais, foram algumas das maneiras utilizadas para lidar com essa situação.

Ao longo dos meses, boa parte da população foi se acostumando, passando a não se chocar ou ligar tanto para o número de óbitos. Foi havendo cada vez menos sensibilidade e mais acomodação.

Esse “cansaço” verificado em relação, por exemplo, às medidas de isolamento social, acontece em diferentes contextos, mas deve ser combatido. Coisas boas e prazerosas, com o passar do tempo, podem ir perdendo um pouco a graça. Devemos nos vigiar para que continuemos valorizando aquilo que gostamos e nos faz bem.

Do mesmo modo, coisas ruins e desagradáveis costumam causar mais sofrimento no início. Por mais difícil que pareça uma situação no momento em que você estiver passando por ela, saiba que o mais provável é que seja um problema temporário (ou que, pelo menos, o sofrimento deverá diminuir progressivamente).

A psicoterapia inclusive utiliza técnicas para estimular a habituação e tratar diversas condições, como transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade social e fobias. Quanto mais o(a) paciente se expõe às situações que geram ansiedade, a tendência é sentir cada vez menos ansiedade.

Tratamento Psiquiátrico

Muitos pacientes que vinham estáveis do seu transtorno mental pioraram dos sintomas e precisaram de ajustes nos remédios, assim como muitas pessoas que nunca haviam feito tratamento psiquiátrico desenvolveram transtornos e precisaram iniciar alguma medicação. Dentre os mais comuns, pode-se mencionar ataques de pânico, transtorno de ansiedade, depressão e transtorno obsessivo-compulsivo.

O mundo teve que se adaptar à nova realidade, incluindo os atendimentos por profissionais de saúde. A psiquiatria provavelmente foi a especialidade da medicina que mais se adequou a consultas por chamadas de vídeo.

Somente uma minoria dos pacientes teve alguma resistência a esse tipo de atendimento, seja por falta de privacidade em casa ou por outro motivo. Alguns também passaram por limitações no tratamento devido à crise econômica.

A telemedicina provavelmente continuará sendo uma alternativa possível mesmo depois da pandemia. Isso representa uma facilidade para a obtenção de consultas e receitas, especialmente nas circunstâncias em que a forma remota for preferível por qualquer razão.

Da Aceitação ao Crescimento

A pandemia nos deixou vulneráveis. Ficamos em contato com nossos mais profundos medos e sentimentos. Vimos nossa rotina mudar. Perdemos nossa liberdade de ir e vir, de abraçar, de fazer reuniões, de programar eventos e viagens. Sentimos falta até das pequenas coisas do dia-a-dia. Pessoas perderam empregos. E o pior de tudo, pessoas perderam a vida ou perderam familiares e amigos sem a capacidade, muitas vezes, de uma despedida adequada.

Infelizmente, a ciência pode ser mais lenta do que queremos ou precisamos. Dúvidas sobre prevenção, tratamento e vacina persistiram por muito mais tempo do que gostaríamos. O controle que desejávamos ter ou pensávamos que tínhamos foi embora. Sem previsões concretas para uma resolução, nos sentíamos sem uma luz no fim de túnel. As projeções sombrias desafiavam qualquer otimismo.

Ainda que o cansaço – e, em alguns casos, o egoísmo – tenha contribuído para que ocorresse uma baixa adesão às medidas de distanciamento social antes do recomendado, foi um período que despertou o altruísmo. Respeitar as medidas preventivas é um ato de amor e empatia ao próximo e a si mesmo. É o modo de demonstrarmos um senso de coletividade, para que possamos sair dessa juntos e fortalecidos.

A pandemia nos obrigou a olhar para nós mesmos, para nossos valores e para o nosso futuro. Refletimos sobre a vida e sobre a morte. Apesar de tanto mal causado, podemos levar conosco alguns aprendizados:

  • Ser grato(a) por estar vivo(a) e pelas coisas simples do dia-a-dia;
  • Valorizar a saúde e a família, praticar o amor ao próximo;
  • Ligar menos para problemas pequenos e reconhecer o que realmente importa para você;
  • Caminhar em direção aos seus sonhos, dedicar-se à espiritualidade ou ao que dá mais sentido à sua vida;
  • Exercitar a paciência, a resiliência e outras virtudes;
  • Aceitar que as respostas para as nossas perguntas, assim como as soluções para nossos problemas, podem demorar;
  • Enxergar ou construir alternativas mesmo em circunstâncias obscuras;
  • Transformar as adversidades em oportunidades para se tornar um ser humano melhor;
  • Saber que, acima de tudo, é fundamental manter as esperanças.